Sala de imprensa

Fortaleza, 15 de abril de 2009.

Caderno 3
Lançamentos

Pra cair no choro

Chorões e admiradores do gênero dispõem de lançamentos editoriais e discográficos para renovar sua paixão

No mês do choro, alusão ao aniversário de Pixinguinha, no próximo dia 23, duas programações movimentam o Estado: o Choro no Centro, promovido até o fim do mês no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, e o Festival Mel, Chorinho & Cachaça, que se repete pelo terceiro ano seguido, em Viçosa do Ceará, de sexta a segunda-feira. Aproveitando a deixa, acertamos o compasso com alguns lançamentos discográficos e editoriais em torno desta paixão nacional renovada a cada dia. Do choro mais eclético e elétrico de Armandinho Macêdo ao clássico Época de Ouro, o gênero de Pixinguinha respira um pouco mais, inclusive graças aos cearenses Marcelo Leite e Carlinhos Crisóstomo, numa homenagem mais tradicional da linguagem a Noel Rosa.

O veterano baiano Armandinho Macêdo, ou simplesmente Armandinho, chega a bordo de sua guitarra baiana e de seu bandolim, na companhia de Cesário Leone (baixo), Mou Brasil (violão), Rudson Daniel (percussão), Marcelo Brasil (bateria) e Yacoce (piano e acordeom). A festa começa com o suingado ´Pop choro exaltação´, dele e Kinho Xavier. E prossegue intensa, à Manassés, até em ´Pop choro lamento´, lá pelas tantas. A vibração de Armandinho espraia até a alegria dos choros de Jacob do Bandolim, em um instrumental mais atual e performático: ´Lembrando Jacob´, seu e do violonista Luiz Brasil. Nesse pique, Jacob é lembrado ainda em ´Noites Cariocas´. O baiano também homenageia Ernesto Nazareth, em seu emocionado ´Um tom pro Ernesto´, e Ary Barroso, em ´Aquarela do Brasil´, ensolarada de volts, a prepara o passo para o frevo ´Dança do Tempo´, na seqüência do trabalho.

A vibração é justificada: o filho de Osmar Macêdo, um dos criadores do trio elétrico, sempre foi, afinal, influenciado pelo rock, como bom adepto das sonoridades elétricas. Mas Armandinho sabe a hora de desplugar. Em show gravado em Salvador, em dezembro de 2006, e já lançado em DVD, ´Pop Choro´ ainda traz seu ecletismo baiano e universal, em parceria com Pepeu Gomes, ´Sarajevo´. E lembrando Jacob, tem até flamenco em sua ´Desde garoto´. A parceria com Luiz Brasil é retomada na incendiária ´jazziquifrevo´ e na assombrosa ´Pororocas´, de levada nordestina como o matreiro ´Forró Bachiano´, de Armandinho e Sivuca. O clima descontraído inclui até alguns choros tradicionais: ´Alto Leblon´, de Armandinho e Zeca Barreto, e, sobretudo, ´Bonitinho e Gostoso´, este com o conterrâneo bom de violão, Luiz Caldas, presente a esta noite brasileira.

E porque falamos tanto em homenagens, vamos desde já registrar a parceria dos cearenses Marcelo Leite (flauta) e Carlinhos Crisóstomo (violão, cavaquinho, bandolim, contrabaixo, teclado e percussão), em torno do universo de Noel Rosa, em ´Marcelo Leite & Carlinhos Crisóstomo tocam Noel Rosa´ (Independente). O encontro já mereceu uma matéria específica do Diário, e cabe-nos apenas ressaltar sua iniciativa, inédita, além, claro, de sua ótima qualidade, em sua fidelidade aos clássicos sambas ´Três apitos´, ´Cem mil réis´, ´Não tem tradução´, ´Feitiço da vila´, ´Feitio de oração´, ´Com que roupa?´, ´Pela décima vez´, todos comentados brevemente no encarte interno. Fidelidade que não se exime de novos arranjos, como também convém ao bom chorão. Por sinal, o CD traz ainda uma raridade guardada por Jacob do Bandolim, justamente, ´Choro´, marcando o encerramento desta adorável ´Conversa de Botequim´, que poderá será retomada, mesmo que de passagem, em novo formato, com o grupo Choro Cearense, na segunda-feira do Mel, Chorinho & Cachaça.

Outras vibrações

Mas quem for ao festival, poderá contemplar todo o lirismo e tradição de outra das nossas indicações de hoje: o conjunto Época de Ouro, homenageado do evento e que estará apresentando o show ´45 anos de choro - relembrando Mestre Dino´. Mais antigo grupo de choro em atividade no Brasil, criado por Jacob do Bandolim em 1966, com o nome de um choro de sua autoria, o Época saúda não só seu violão de 7 cordas, Horondino Silva, que partiu em 2006, mas César Faria, violão de 6, pai de Paulinho da Viola, que partiu há dois anos, e todos os chorões. A apresentação será sábado, no bucólico palco da Igreja do Céu, pouco antes do Choro das 3, grupo feminino paulistano que faz um choro mais atual, inclusive vocal.

Conjunto instrumental que ganhou o mundo a partir de 1967, com o álbum ´Vibrações´, o Época de Ouro continua uma referência da MPB. Marisa Monte gravou com ele no CD ´Cor de Rosa e Carvão´. Dele surgiu o Clube do Choro do Rio de Janeiro, idealizado por Paulinho e Sérgio Cabral. Hoje, Jorginho do Pandeiro (irmão de Dino), Jorge Filho (cavaquinho, filho de Jorginho), Antonio Rocha (flauta), Ronaldo do Bandolim, Toni (violão de 7 cordas) e André Bellieny (violão de 6 cordas) têm a responsabilidade de levar a boa e velha estirpe do grupo ao universo do Época de Ouro. Como o fizeram depois da morte de Jacob, que completa 40 anos em agosto.

Ainda com as ´baixarias´ de Dino e de César Faria, o grupo lançou, em 2001, pelo selo alemão Teldec, o álbum ´Café Brasil´, relançado ano passado pela Warner. Tocam ´Noites Cariocas´ (Jacob), ´Onde andarás´ (Caetano Veloso e Ferreira Gullar), ´Pastora dos olhos castanhos´ (Horondino Silva e Alberto Ribeiro), ´1x0´ (Pixinguinha e Benedito Lacerda), ´Jamais´ (Jacob do Bandolim e Luiz Bittencourt), ´Títulos de Nobreza´ (João Bosco e Aldir Blanc), ´Treme-Treme´ (Jacob) e ´Mariana´ (Irineu de Almeida). Tudo com arranjos rigorosos, impecáveis, estimulantes como todo o projeto.

Entre outros clássicos e achados, participam ainda outros craques, como Sivuca, o produtor Rildo Hora, Maurício Carrilho, Joel do Nascimento, Altamiro Carrilho, Cristóvão Bastos, Luciana Rabello, Henrique Cazes, Pedro Amorim, Paulo Sérgio Santos, Carlos Malta e Celsinho Silva, além das vozes de Marisa Monte, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Leila Pinheiro, João Bosco e Ademilde Fonseca, fazendo tabelinha com o próprio Época. Com libreto com fotos e informações sobre cada gravação, ´Café Brasil´ promove uma necessária e valiosa ponte entre diversas épocas, várias vibrações do eterno chorinho. Sempre brasileiríssimo.

Chorando em casa

Dois projetos editoriais, um da gravadora Biscoito Fino, outro do selo Choro Music, promovem a formação musical através do choro. Em formato de sonbook, os projetos Choro 100 e Clássicos do Choro Brasileiro permitem o contato com clássicos do gênero, além de acompanhamento didático por grandes músicos brasileiros.

A série da Biscoito Fino é voltada para violão e pandeiro e são orientadas, respectivamente, por Rogério Souza e Celsinho Silva. Ela promete capacitar os instrumentistas com alguma base a melhorar suas performances nas rodas de choro. Ambos volumes trazem um método didático em edição bilíngüe, com partituras, histórico do instrumento, discografia, biografia do autor e comentário sobre as músicas que integram um CD com 14 músicas, alternando as caixas da execução dos instrumentos, pelo grupo Nó em Pingo D’água (presente ano passado ao Festival Mel, Chorinho e Cachaça) e ainda o cavaquinista Jame Vignolli.

A gravadora promete lançar ainda métodos para baixo, bandolim, cavaquinho e sopros. Por enquanto, Rogério Souza, violonista do Nó em Pingo D’água, sintetiza a atuação do instrumento no choro, o violão de 7 cordas, os principais representantes, comentários sobre músicas e até outros gêneros. Celsinho Silva segue o mesmo roteiro, enumerando nomes como João da Baiana, Jackson do Pandeiro e Marcos Suzano, tendo ainda um texto do Época de Ouro Jorginho do Pandeiro. Nos CDs, “Ainda me Recordo”, “Assanhado”, “Delicado”, “Vibrações”....

Outro songbook

A proposta de “estudar tocando”, estimulando a prática de conjunto, assim como a personalidade do solista, também é a intenção da publicação da série Clássicos do Choro Brasileiro. Aqui, as músicas dos CDs são relativas a compositores específicos: Zequinha de Abreu, Ernensto Nazareth, Severino Araújo, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Joaquim Calado e Jacob do Bandolim. Nelas, é possível exercitar a música com acompanhamento (de feras como o pessoal do Época de Ouro e ainda solistas como a saxofonista Daniela Spielman e o clarinetista Nailor Proveta) e como solista, em segunda execução das faixas. Outro diferencial é o formato em espiral e em tamanho maior do que o material da Biscoito Fino (este em papel couché), além de faixa de afinação e das partituras com afinações em Dó, Si bemol e Mi bemol. Fundando em 2007 pelo flautista brasileiro Daniel Dalarossa, o selo também disponibiliza as faixas pelo site www.choromusic.com.br

HENRIQUE NUNES
Repórter

 

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