Sala de imprensa

Belo Horizonte, 14 de outubro de 2008.

NOSTALGIA DO CHORO
Três lançamentos recuperam obras de grandes chorões

Kiko Ferreira

O choro é livre, mas tem suas regras. E nada como aprender com os mestres que, para exercer a plena liberdade de improvisar, solar e (re)criar em cima de choros famosos, é importante conhecer os trabalhos dos mestres. Três produtos que chegam ao mesmo tempo às lojas especializadas e sites de música servem como bons guias aos iniciantes e exercício de nostalgia aos veteranos. “Café Brasil”, disco lançado em 2002 pelo selo Teldec, ganha nova edição, com encarte de luxo e sobrecapa, pela Warner. E o selo especializado Choro Music edita, ao mesmo tempo, um volume dedicado a Ernesto Nazareth e outro a Severino Araújo, o compositor pernambucano que é mais conhecido como instrumentista e maestro da lendária Orquestra Tabajara.

Principalmente para estudantes e músicos, “Clássicos do Choro Brasileiro - Severino Araújo Vol. 1” é o mais precioso. Misto de CD e songbook com partituras, o trabalho apresenta doze choros compostos pelo clarinetista da Tabajara, como “Espinha de Bacalhau”, “Gafanhoto Manco” e “Mumbaba”, interpretado pelo regional Noites Cariocas, formado por André Bellieny(7 cordas), Darly do Pandeiro e Márcio Almeida(violão), aditivado por solistas mais que especiais : Mané Silveira (sax), Frankiln da Flauta e Daniel Dalarossa (flautas), Daniela Spielman (sax), Izaías do Bandolim, Mário Seve (sax) e outros bacanas. A edição do livro é bilíngüe, com notas sobre a origem do termo choro, a importância de Severino e comentários úteis sobre o trabalho. No CD, duas versões de cada música. Uma, completa, e outra sem os solos, para que o músico possa fazer sua própria versão e praticar.

Com uma escalação de músicos que inclui estrelas como Nailor Proveta (clarinete), Toninho Carrasqueira (flautas), Luca Raele (clarineta) e Izaias do Bandolim, “Clássicos do Choro Brasileiro – The best of Ernesto Nazareth” não traz livro de partituras, mas mantém a mesma qualidade do selo nas releituras de 16 das composições do carioca Ernesto Nazareth, nascido em 1863 e morto em 1934 e um dos principais compositores brasileiros de finais de século XIX e início dos XX. “Ameno Resedá”, “Apanhei-te Cavaquinho” e “Odeon””, além das inéditas “Zininha” e “Ideal”, estão no repertório deste primeiro volume. O encarte do CD anuncia dois outros discos dedicados a Nazareth, dois de Jacó do Bandolim e um de Chiquinha Gonzaga. E o mais curioso é que o selo Choro Music nasceu no ano passado, na Califórnia, fundado pelo flautista brasileiro Daniel Dalarossa, com objetivo de divulgar o choro pelo mundo.

Já Café Brasil, apesar de servir como um conjunto de lições de interpretação, é menos didático, mas de audição mais estimulante. Não só pelo repertório, tão bom quanto o dos discos, mas pelas interpretações. No comando do espetáculo, apoiado por produção musical, alternada, de Rildo Hora, Vinícius Sá e Jorginho do Pandeiro, o conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim e sobrevivendo a mudanças de formação e crises econômicas e ameaças de esquecimento do choro, chega ao terceiro milênio em companhia de amigos e admiradores ilustres.

De um Sivuca solando à vontade na faixa de abertura, “Noites Cariocas” (Jacob do Bandolim) a uma Marisa Monte reverente cantando uma versão chorona de “Onde Andarás” (Caetano e Ferreira Gullar), o CD de 16 faixas inclui astros convidados como Paulinho da Viola, João Bosco,Martinho da Vila, Leila Pinheiro e a veterana Ademilde Fonseca, em meio a um Butantã de instrumentistas do quilate de Maria Teresa Madeira, Altamiro Carrilho, Paulo Sérgio Santos, Joel do Bandolim, Carlos Malta, Henrique Cazes e o próprio Rildo Hora. O repertório vai de “Brasileirinho”, “Brejeiro” e “André de Sapato Novo” a escolhas menos óbvias, como a bela homenagem que João Bosco e Aldir Blanc fizeram a Ademilde, “Títulos de Nobreza”.

Três belos exemplares de discos de e para chorões, para degustar com prazer e respeito.

 

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