A guitarra brasileira de Marquinho Mendonça
Daniel Brazil (Revista Música Brasileira)

A nossa música tem uma relação mal resolvida com a guitarra elétrica. Símbolo mundial do rock, foi vista com desconfiança quando por aqui chegou. Nos anos 60 suscitou até uma famosa passeata de protesto, da qual participaram Elis Regina, Edu Lobo e Gilberto Gil, entre outros.

Obviamente, a guitarra acabou ocupando um nicho, como os teclados eletrônicos e outras traquitanas. Mesmo assim, quando um músico assume a guitarra como instrumento é geralmente visto como roqueiro, pop ou, de uns tempos pra cá, sertanejo. No máximo, jazzista. Brazilian jazz, world music, essas coisas.

Poucos, como Armandinho e sua guitarra baiana, conseguem definir um estilo original, com sotaque brasileiro. As guitarradas do Norte amazônico são outro exemplo bem antropofágico. Não faltam bons guitarristas no país, mas as escolas insistem em ensinar por cartilhas e métodos estrangeiros, onde os modelos a serem seguidos são jazzistas e roqueiros americanos e ingleses.

Mas quando um músico como Marquinho Mendonça enfrenta o desafio de construir uma linguagem brasileira para a guitarra, é preciso parar pra ouvir. Claro que ele toca, e bem, vários instrumentos de cordas. É capaz de entrar com desenvoltura numa roda de choro, tocando violão, bandolim ou cavaquinho. Demonstra essa versatilidade escrevendo temas acústicos de forma indissoluvelmente brasileira.

Em seu novo CD, Tempo Templo (Por do Som, 2010), Marquinho coloca sua guitarra pra gingar em jongos, sambas, ritmos latinos e forrós. Temas amplos e assoviáveis se alternam com intrincadas construções que nunca perdem de vista (ou de ouvido) a eufonia. Seus arranjos primam pelo equilíbrio, permitindo que sopros, teclados e percussão dividam os temas com a guitarra, sem egocentrismo. Não há solos pretensiosos, mas uma legitima preocupação em fazer a música soar bem, com grande diversidade de timbres.

Alguns podem associar sua sonoridade com a de um Pat Metheny, por exemplo. Mas quem conhece seu CD anterior, Filosofolia (2006), sabe que Marquinho Mendonça cada vez mais soa como ele mesmo. Mesmo tendo experiência internacional (estudou em Los Angeles, EUA), é nítido o prazer com que compõe e toca choros, frevos e cirandas, alternando climas eletrizantes com outros mais relaxados.

Não é à toa que se cerca de gente como Zé Menezes - homenageado em uma faixa - Proveta, Toninho Carrasqueira, Bocato, Dinho Nascimento ou Oswaldinho do Acordeon, só para citar alguns. Aliás, são tantos músicos que participam de seus discos que isso acaba se tornando uma marca do compositor: Marquinho inventa seus temas livremente, sem se prender à estrutura de um grupo reduzido. Assim pode ter um super naipe de sopros numa faixa, um regional de choro em outra, um combo de sotaque afro-latino mais adiante.

Marquinho Mendonça faz, enfim, música de primeira linha, reconhecendo e reinventando todas as influências. Talvez seja o guitarrista que mais defina, hoje, o complexo perfil de uma guitarra brasileira, o que não é pouco. E um traço curioso: embora faça questão de encerrar seus CDs com faixas onde toca instrumentos acústicos, é o som de sua guitarra que permanece por mais tempo em nossa memória. Palmas para ele! Embora jovem, e com um brilhante futuro pela frente, já pode servir de exemplo para muito garoto que está pegando na guitarra agora e acha que só é possível tocá-la com sotaque britânico.

 

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